Caso Nicolas   09/05/2018 | 20h35     Atualizado em 10/05/2018 | 13h01

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Morte de criança expõe problemas na saúde pública de São Marcos

Menino de 7 anos teve convulsão na escola e faleceu de hemorragia pulmonar em hospital de Caxias após ser transportado em ambulância sem máscara de oxigênio com suporte ventilatório e sem acompanhamento médico. Pais processarão hospital e prefeitura

Nicolas, de 7 anos, precisou ser levado por professores para pronto-socorro de hospital de São Marcos:  na ambulância para o HG, menino foi sem médico
Nicolas, de 7 anos, precisou ser levado por professores para pronto-socorro de hospital de São Marcos: na ambulância para o HG, menino foi sem médico

A morte de uma criança de 7 anos (Nicolas Benhur Alves Orquis) na última sexta-feira (4) expôs série de problemas no atendimento de saúde pública em São Marcos. Coincidentemente o fato aconteceu no dia em que prefeitura e Hospital São João Bosco (HSJB) debatiam o contrato pelo qual a entidade hospitalar recebe R$ 220 mil mensais de dinheiro público municipal para prestação de serviços de saúde aos usuários do SUS. É a situação de Nicolas, que não possuía plano privado. Em seu caso, as adversidades iniciaram pela demora no resgate do Samu, situação recorrente e que acontece há anos em São Marcos: o Serviço Móvel de Urgência foi chamado para socorrer Nicolas na Escola Orestes Manfro, onde ele teve uma convulsão por volta das 16h da última sexta-feira (4); mas o aluno acabou sendo levado ao HSJB de carro pela diretora e uma professora, que cansaram de esperar a transferência da ligação telefônica para a central de regulação, em Porto Alegre. Os contratempos também passaram, ao que tudo indica, pela ausência de uma tomografia, solicitada pelo médico do HSJB, onde Nicolas ficou internado entre 16h e 21h do dia 4 de maio, conforme relato dos pais. E culminaram naquela que aparece como a falha mais grave do processo e que pode ter colaborado para a morte da criança: falta de máscara de oxigênio com suporte ventilatório e acompanhando médico na ambulância da prefeitura de São Marcos, requisitada pelo plantonista do HSJB para levar o menino a Caxias do Sul. Foi lá que o garoto faleceu, após ingressar no Hospital Geral (HG) por volta das 23h, "sem pulso e sem respiração espontânea", como descreveu a médica pediatra Juliana Avilla no resumo clínico, que acompanhou o boletim de ocorrência (BO) registrado pela família na Delegacia de Polícia Civil de Caxias do Sul.

O documento médico, que aponta falhas no transporte do paciente, foi encaminhado para a necropsia do IML (Instituto Médico Legal), que fará a autopsia e em 30 dias oficializará a causa do óbito, ocorrido às 0h28 de sábado (5). Segundo a médica caxiense que atendeu Nicolas na UTI pediátrica do HG, a causa provável da morte foi hemorragia pulmonar. Ao que tudo indica ela foi causada pela falta de suporte ventilatório (que faria o garoto respirar), pois Nicolas chegou ao hospital caxiense praticamente sem vida e, após ter sofrido parada cardiorrespiratória na ambulância, precisou ser reanimado pelos médicos, como detalha a pediatra. "Paciente encaminhado do Hospital de São Marcos em ambulância não medicalizada e sem suporte ventilatório, chegou na UTI pediátrica recebendo O2 (oxigênio) por máscara, que foi colocada na chegada a este hospital (HG). O paciente não apresentava pulso central, tampouco respiração espontânea. Foram iniciadas manobras de reanimação cardiopulmonar com sucesso após 25 minutos. Houve mais duas paradas cardiorrespiratórias, sendo a última com duração de aproximadamente 15 minutos", descreve a pediatra em seu resumo clínico. Para a mãe de Nicolas - Cláudia Luana Alves Orquis, 33 anos -, que acompanhou o filho na ambulância, está evidente que houve equívocos na conduta médico-hospitalar adotada em São Marcos. "O hospital não deu o suporte necessário e ele saiu sem um médico acompanhando.  Deu um ataque cardíaco na estrada e, como não tinha aparelhagem (máscara) de oxigênio, ele chegou no Hospital Geral muito mal. Tem até laudo dizendo que a ambulância saiu do hospital despreparada", afirma.

No entendimento de Cláudia, foram esses erros que provocaram a morte de seu filho mais novo (ela também é mãe de um menino de 9 anos). "Foi uma negligência, como está escrito pela médica, que não quis dar o óbito e mandou levar o papel na Delegacia. Foi um erro, porque era obrigatório o médico ter ido junto: quando deu a parada cardíaca na ambulância ele saberia o que fazer. Porque o motorista não sabia, nem a auxiliar de enfermagem e muito menos eu. Por isso o médico tinha que ter ido junto na ambulância", assinala Cláudia. Seu protesto tem fundamento: conforme a Resolução 1.672, publicada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em 2003 para regularizar o transporte inter-hospitalar, os pacientes devem ser removidos "com atendimento básico respiratório e hemodinâmico", sendo que "pacientes graves ou de risco devem ser removidos acompanhados de equipe composta por tripulação mínima de um médico, um profissional de enfermagem e motorista, em ambulância de suporte avançado". Mas no transporte de Nicolas as regras parecem não ter sido respeitadas. 

’Todas ambulâncias têm oxigênio e são averiguadas diariamente’

Mesmo que a diretora municipal de Saúde Cristiane Castilhos assegure que "todas as ambulâncias do município (são 3 brancas) têm oxigênio, sendo averiguadas diariamente e nunca faltando equipamento", o fato é que (conforme relata a mãe de Nicolas e descreve a pediatra caxiense) o garoto chegou a Caxias sem máscara de oxigênio com suporte ventilatório, que permitiria ao paciente respirar mesmo estando inconsciente (apenas uma UTI Móvel dispõe destes equipamentos). "Quando estávamos no meio da Serra deu uma parada respiratória no meu filho e a enfermeira começou a procurar equipamentos. Pararam a ambulância para procurar, mas não tinha (máscara de) oxigênio. Só o que a enfermeira tinha era uma injeção para sedar o guri. Se houvesse (máscara de) oxigênio tinham salvado e ele tinha chegado bem", desabafou Cláudia, embargando a voz e não conseguindo conter as lágrimas."O que mais dói é que não deram atenção ao meu filho. Ele só não está vivo porque um médico não acompanhou na ambulância, que não tinha (máscara de) oxigênio. No hospital de Caxias conseguiram ressuscitar ele duas vezes. Se tivesse chegado em melhores condições, ainda estaria vivo", acredita a mãe.

Pais apontam falta de tomografia solicitada por médico, mas diretor assegura que ’protocolo SUS foi seguido’

O padrasto de Nicolas - Felipe Magrini, 39 anos - demonstra contrariedade com o tratamento que a família teve no Hospital São João Bosco. "Ele entrou no hospital às 16h com convulsão e até as 20h ficou só com soro e tomando plazil, porque estava vomitando. Precisavam ter feito um eletroencefalograma ou uma tomografia, como o médico pediu, porque uma convulsão não é do intestino ou do pulmão, é do cérebro e neste caso se faz eletro ou tomo e até ir pra Caxias não fizeram nada disso, apenas exame de sangue. Tivessem feito o eletro e podiam descobrir se tinha uma veia para estourar e se precisava cirurgia. Mas quando levaram do colégio para o hospital a primeira coisa que queriam resolver antes de botar a mão no guri é como ia ser o pagamento, se tinha dinheiro ou se ia entrar pelo SUS, que daí tinha que ir atrás de papel", protesta. "Pediram se era no particular e se eu tinha dinheiro e, como eu disse que não tinha, mandaram deixar meu filho no Hospital e ir na Secretaria Municipal de Saúde pegar o papel", complementa Cláudia.

Também ouvido pelo L’Attualità, o diretor do HSJB, Rogério Soldatelli, assegura que "o protocolo SUS foi seguido". "Vamos aguardar a autopsia, porque no Hospital São João Bosco foi seguido o protocolo. A criança entrou com convulsão, os pais e a escola não sabem o que aconteceu e nós também não. Demoraram para transferir, mas isso é problema do Estado e não do Hospital, porque precisava ter ambulância equipada e não tem. Se eles vão processar é uma pena, mas não tem o que fazer. O processo vai mostrar a verdade", assinala Soldatelli, ressaltando que, a partir de agora,  informações quanto aos exames realizados em Nicolas somente serão prestadas pelo Hospital à Justiça.

’Acordamos, tomamos café e ele foi brincar e fazer as tarefas da escola, como sempre’

Menino foi sepultado nesta segunda-feira (7), em Vacaria: mãe fará rifa para cobrir despesas do funeral
Menino foi sepultado nesta segunda-feira (7), em Vacaria: mãe fará rifa para cobrir despesas do funeral

Cláudia recorda que, no dia da morte, seu filho estava "normal". "Acordamos, tomamos café e ele foi brincar e fazer as tarefas da escola, como sempre. Tomou banho, almoçou e foi para a escola, tudo normal. Lá, brincou no recreio, comeu a merenda e quando estava fazendo a lição, caiu. Chamaram o Samu, que não apareceu na escola e daí a diretora ligou para mim. Eu estava numa entrevista de emprego e fui correndo para o hospital. Fizeram exames de sangue, o doutor pediu uma tomografia e um eletroencefalograma (está no prontuário), mas não foi feito esse exame. Ficamos na observação e ele voltou a ficar mal e começou a vomitar. Fomos para o quarto e começou a dar uma convulsão atrás da outra. Chamei o médico e na terceira convulsão ele se apagou. Era umas 21h30 e decidiram transferir. Ele estava no oxigênio e não podia ficar sem", aponta, lembrando que o plantonista que atendeu Nicolas no HSJB chamou o pediatra Paulo Pessini, que teria solicitado a tomografia. "O médico plantonista medicou, a criança reagiu e ele solicitou que eu fosse dar uma olhada. A mãe relatou que já tinha acontecido isso algumas vezes e eu sugeri que ela pedisse encaminhamento para um neurologista", comenta Pessini. Ele diz que no HSJB foram realizados alguns exames que não apontaram nada. "Mas a tomografia não foi feita. Acho que não foi realizada porque já não havia mais depois daquele horário", assinalou, lembrando que duas horas depois a outra médica plantonista (do turno da noite) informou que o menino havia tido outra convulsão. "Daí ela fez todos os procedimentos necessários para encaminha-lo à Caxias", descreve. O pediatra são-marquense reconhece que há deficiência no transporte de pacientes. "Todo mundo sabe que nós não temos um transporte adequado à Caxias pelo SUS. E se é solicitada uma UTI móvel de Caxias, o médico tem que decidir se espera, porque pode demorar umas 6 horas para chegar", revela Paulo, salientando também outra deficiência do sistema de saúde são-marquense: falta de plantão pediátrico. 

’Foi um erro que causou a morte do meu filho, vamos entrar na Justiça’: família está com dificuldades para pagar sepultamento

Segundo Cláudia, Nicolas era uma criança tranquila, que "pouco incomodava". "Ele era um anjo, que me fazia companhia e me ajudava. Era o meu filho e não quero que aconteça com outras pessoas. Tenho vontade de perguntar no hospital porque não fizeram o que tinham que fazer, mas não tenho mais forças. Só o que sei é que foi um erro que causou a morte do meu filho e vou levar isso para frente. Vamos entrar na Justiça contra o hospital, a prefeitura, o Samu e todos os envolvidos", destaca. Ela garante que seu filho não possuía problemas de saúde e nem sofria de convulsões. "Um mês antes ele fez diversos exames, porque estava abaixo do peso e o médico pediu para ver se ele não tinha anemia. Foi tudo feito e vamos levar os prontuários para o advogado", afirmou, dizendo que antes deste caso seu filho havia tido uma convulsão aos 2 anos. "Ele fez exames (tomografia e do coração) e nunca acusou nenhum aneurisma e nem nada", assegurou a mãe de Nicolas, que foi sepultado na última segunda-feira (7), em Vacaria, terra natal de sua mãe, que desde fevereiro de 2017 reside em São Marcos. Sem dispor de muitos recursos financeiros (só o companheiro Felipe possui emprego, trabalhando como Operador de Injetora em metalúrgica são-marquense), a família precisou parcelar o custo do funeral. "Custa uns R$ 2,3 mil e demos R$ 900 de entrada", revelou Cláudia, dizendo que as professoras da Escola Orestes (que foram a Vacaria prestar solidariedade), se dispuseram a fazer uma rifa para auxiliar a família.

’Estamos tendo um cuidado especial com os alunos. Chamamos a professora Lilian, que é psicóloga’

Conforme a diretora da Escola Estadual Orestes Manfro, Daniela Ampessan, a morte do aluno causou comoção na escola. "Foi a primeira vez que aconteceu um caso assim de convulsão de um aluno na Orestes. Ele tinha voltado do recreio e começou a convulsionar. As crianças saíram da sala e os professores atenderam ele, enquanto eu ligava para o Samu. Mas, como eles não vieram (só dava aquela gravação), achamos por bem levá-lo ao hospital o quanto antes. Uma professora pegou ele no colo e fomos de carro. Ele estava com batimentos, respiração e tudo, mas estava com o olhar distante e queria dormir. Entramos porta adentro do Pronto Socorro e o médico junto com nós", recorda. Daniela destaca que, à noite, quando ligou para a mãe de Nicolas, a notícia era de que o menino estava bem. "A mãe estava esperando que ele tivesse alta. Ela disse que ele estava com dor de cabeça e que iam fazer uma tomografia", recorda a diretora da Orestes. Pelo que disse, a escola buscou apoio de uma psicóloga para auxiliar os demais alunos a lidar com a perda do colega. "Estamos tendo um cuidado especial com os alunos. Chamamos a professora Lilian, que é psicóloga, e ela está atendendo", afirmou a educadora, lamentando o desfecho trágico com a morte do menino Nicolas.