Morte Nicolas   10/05/2018 | 16h46     Atualizado em 10/05/2018 | 17h43

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Morte de criança em São Marcos: ambulância tinha oxigênio, mas não possuía suporte ventilatório’

Motorista da ambulância da prefeitura de São Marcos que transportou Nicolas Orquis à Caxias assegura que garoto recebeu oxigênio por óculos nasais, que não permitem suporte ventilatório. Médico explica diferença entre ter oxigênio e conseguir respira

Depois da morte de Nicolas vereador faz indicação para Executivo adquirir UTI Móvel
Depois da morte de Nicolas vereador faz indicação para Executivo adquirir UTI Móvel

Foto: Angelo Batecini

A morte de uma criança de 7 anos que teve convulsão na Escola Estadual Orestes Manfro na última sexta-feira (4) e foi transferida ao Hospital Geral (HG) de Caxias do Sul (após ficar cinco horas internada no Hospital São João Bosco, em São Marcos) revelou série de problemas na saúde pública municipal. Um dos principais é a falta de suporte adequado das ambulâncias para transferir pacientes do SUS, já que o município não dispõe de UTI Móvel. Conforme os pais do menino Nicolas Benhur Alves Orquis (Cláudia Luana Alves Orquis e Felipe Magrini), a criança teria sido transportada sem receber oxigênio. A informação, contudo, foi melhor esclarecida pelo motorista que conduziu a ambulância que transportou Nicolas, e também pelo médico Gilberto Moschetta.

Ele destaca que o oxigênio foi disponibilizado por óculos nasais (dispositivo para instalação de oxigênio através dos indutores nasais do paciente).

- Ele saiu daqui e chegou na UTI com oxigênio, diferente do que a mãe relatou, que a criança teria ido sem oxigênio até lá - assegura o motorista Edson Padilha. 

- A criança saiu daqui com óculos nasais e chegou lá assim. Se não foi com máscara não cabe a mim ou à Secretaria que disponibilizou a ambulância. Só o que posso dizer é que não faltou oxigênio, pois a criança foi com óculos nasal, como estava dentro do São João Bosco - salienta o funcionário da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

Padilha conta que, ao chegar no HG, foi imediatamente buscar um "torpedo portátil" (máscara de oxigênio para colocar no menino).

- Como o oxigênio é fixo na ambulância, desembarquei e peguei um portátil dentro do hospital - descreve o motorista.

Padilha reconhece que em São Marcos há falta de suporte para o translado de pacientes.

- Sabemos que há deficiência no transporte. Mas neste caso o principal era um médico ter ido junto. Nesta parte pode ter havido negligência. Mas dizer que não tinha oxigênio na ambulância é mentira: todas têm e nunca faltou - assegura o funcionário público municipal.

Vereador faz indicação para Executivo adquirir UTI Móvel: ’Dará suporte a médicos, enfermeiros e motoristas’

É para qualificar o transporte de pacientes de São Marcos a outros municípios que o vereador Fúlvio Pessini (MDB) protocolou, na última terça-feira (8), indicação ao Poder Executivo para que o município adquira uma UTI Móvel. Ele justifica a medida dizendo que essa é "uma urgência e uma carência" que existe em São Marcos há muitos anos.

- A compra de uma UTI Móvel auxiliará no transporte de pacientes com modernidade e segurança, dando suporte aos acompanhantes, médicos, enfermeiros e motoristas. Com esta medida a administração municipal estará dando melhores condições de trabalho a todos e poderá salvar vidas - pondera o vereador.

Na avaliação de Fúlvio, as atuais ambulâncias da SMS estão um pouco precárias e uma UTI seria importante para casos de urgência. Segundo Pessini, a ideia é antiga e foi reforçada pelo caso envolvendo a morte de Nicolas Orquis, em 4 de maio.

- Essa indicação será lida na sessão da próxima segunda, 14 de maio. Já havia manifestado essa ideia ao prefeito ano passado e avisei ele da indicação que estou fazendo para que veja as possibilidades financeiras do município, ou consiga verba federal com algum deputado. Também dá para conseguir direto com o Ministério da Saúde, mas vejo boa possibilidade de se conseguir por emenda federal e cabe ao prefeito tentar buscar isso - apontou o líder da bancada no MDB na Câmara de Vereadores de São Marcos.

Ventilação é uma coisa, oxigênio é outra’: médico destaca necessidade de UTI Móvel para transporte de pacientes em risco

No resumo clínico da médica pediatra que atendeu Nicolas Orquis no Hospital Geral (HG) em Caxias do Sul, na noite de 4 de maio, fica evidente que houve falta de suporte ventilatório ao menino, que chegou no HG "sem respiração espontânea e sem pulso central".

- Ventilação é uma coisa, oxigênio é outra. É importante entender a diferença, porque uma pessoa pode estar com 100% de oxigênio e não conseguir respirar por estar inconsciente. Neste caso o oxigênio não entra nos pulmões e não adianta nada - assinala o médico cardiologista da Sociedade Médica São Marcos, Gilberto Moschetta, diretor clínico do Hospital São João Bosco.

Ele destaca que dispor de suporte ventilatório é diferente de ter oxigênio.

- Ventilar é respirar. Precisa movimentar, encher e esvaziar os pulmões de ar e o nome médico disso é ventilação. Então, quando a médica (caxiense) fala (no resumo clínico encaminhado para a necropsia e para a Delegacia de Polícia onde a família registrou boletim de ocorrência) em assistência ventilatória, ela se refere a alguma maneira que permita a entrada e saída de ar dos pulmões. O que a médica coloca é que a criança chegou sem respiração - esclarece Moschetta.

Como observa o médico, só através de uma máscara ou de um tubo teria sido possível disponibilizar suporte ventilatório para que Nicolas, mesmo inconsciente, continuasse respirando.

- Para fazer suporte ventilatório precisa usar algum tipo de aparelho, como o Ambu, que é um bolsa de oxigênio que inflamos e apertamos (mal comparando é como uma bomba de pneu de bicicleta). Mas para usar o Ambu tem que utilizar máscara ou tubo orotraqueal (caninho de borracha que vai dentro do pulmão). Por meio de óculos nasal não há como usar o Ambu, que automaticamente exige máscara ou tubo" - salienta o médico.

Também conhecido como reanimador manual, o Ambu é composto por um balão, uma válvula unidirecional, máscara facial e reservatório. O equipamento tem finalidade de promover a ventilação artificial enviando ar comprimido ou enriquecido de oxigênio para o pulmão. É usado em situações de parada respiratória, asfixia, afogamento, infarto e tudo que pode levar o paciente a ter uma parada cardiorrespiratória, sendo utilizado em situações de resgate e primeiros socorros. Por ser item indispensável, existe em UTI’s e salas de emergência.

Segundo Moschetta, apenas as UTI’s Móveis dispõem do equipamento.

- Ambulância comum não tem. Quem possui equipamento de ventilação é UTI Móvel, que tem Ambu e ventilador. As ambulâncias comuns (brancas, como chamamos em São Marcos) têm apenas oxigênio e a pessoa precisa estar respirando por conta - detalha o médico.

Em sua avaliação, ambulância comum é para transferir pacientes em bom estado de saúde.

- Ambulância comum é para transferir quem quebrou uma perna e vai fazer uma ressonância. É para quem está bem e nem precisaria de oxigênio.

Na entrevista que concedeu ao L’Attualità na manhã desta quinta (10), Moschetta ainda esclareceu que a quantidade de oxigênio no sangue é medida por um aparelho instalado no dedo e denominado Oxímetro.

- A máscara dá mais oxigênio que os óculos, mas não quer dizer que tenha que usar a máscara em todos os casos, pois é possível controlar com óculos, dependendo a necessidade da pessoa. Na maioria dos nossos pacientes do Hospital São João Bosco usamos oxigênio por óculos nasal - finaliza o cardiologista.